Engraçado como tudo é maior e mais bonito quando se é criança.
Ela o observava pelo intervalo que ficava entre uma ripa e outra de madeira.
Ele chegava todos os dias no mesmo horário, subia as escadas, abria a porta, sentava no banquinho, tirava os sapatos, as meias, a camisa e as calças.
Andava de um lado para o outro, abria a geladeira, tomava água, comia algo.
Deitava no sofá como um rei.
Era grande, forte, barba por fazer, cabelos negros cacheados.
Tão bonito, tão alto, tão homem.
E ela lá, fitava cada passo, cada gesto, como se decorasse uma coreografia.
Era excitante observar aquilo tudo.
E o melhor, ele não a via. Isso era o melhor!
Era inevitável procurar todos os dias o melhor ângulo, a melhor fresta.
Tudo para ver a melhor posição, o melhor enquadramento.
A menina curiosa cresceu e, um dia, observou o homem que há tempos não reparava.
Já não era tão alto, nem tão bonito...
Ela cresceu e, como por encanto, o encanto acabou.
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